O cientista e o ocultista

Ciência e ocultismo são níveis de um mesmo exercício. Por não entender isso é que as pessoas se assustam quando se deparam com a relação íntima que muitos cientistas têm com rituais de magia ou coisas parecidas. Quem assistiu os vídeos da inauguração de um túnel da Suiça ou o ritual macabro dentro do CERN fica assustado, acreditando que há uma incoerência entre a atitude científica e a ocultista.

No imaginário popular acredita-se que o cientista é o modelo de racionalidade, que sua ação é o exato oposto da superstição e do misticismo e que, apenas baseado na lógica, seu objetivo é entender os segredos da natureza. O ocultista, por outro lado, é tido por aquele que mexe com coisas misteriosas, que não estão acessíveis à maioria das pessoas e que pertencem ao mundo do desconhecido, até do sobrenatural. Assim, para as pessoas comuns, não há relação possível entre ambos, constituindo-se até antagônicos.

Ocorre que tais concepções sobre os dois tipos estão equivocadas e compreendê-las melhor é o caminho para entender porque há esse amálgama inesperado entre eles.

O cientista é, de fato, aquele que perscruta a natureza, até sua mais ínfimas manifestações, buscando entender o seu processo e, quem sabe, manipulá-la conforme seus objetivos. É errado dizer que o cientista observa a realidade. Ele observa e trabalha sobre os fenômenos dela, que são parciais e que não oferecem, em si mesmos, nenhuma explicação sobre seu sentido.

Já o ocultista, diferente do que muita gente pensa, não é um místico, nem se preocupa com assuntos transcendentais, mas, de fato, como o cientista, trabalha sobre os elementos da natureza, tentando encontrar, principalmente naqueles mais escondidos e sutis, forças que, por desconhecimento, não são utilizadas pelo restante da humanidade. A diferença é que ele, diferente do cientista, não precisa antes observar o fenômeno para concluir que ele exista. Basta saber, por meio do conhecimento herdado dos sábios antigos, que existem essas forças ocultas para que possa empreender seus esforços naquela direção.

No entanto, o objeto que ambos, cientista e ocultista, manipulam é o mesmo, a saber, os elementos da natureza, sejam estes mais visíveis e evidentes ou sutis e ocultos.

Sabendo disso, não há mais motivos para se espantar com a relação entre ciência e ocultismo, que é evidente desde, pelo menos, o século XVIII. A partir do momento que o cientista começa a investigar os processos da natureza, desvendando seus “segredos”, mergulhando, cada vez mais, até às manifestações mais escondidas, como é o caso da biologia celular ou da física quântica, até pelo impulso científico mesmo, é apenas um passo para que ele comece a se perguntar se não há elementos ainda mais ocultos, ainda mais sutis, do que aqueles que até ali observou.

Aliado a isso, quando a ciência toma a lugar que pertencia à fé, apresentando-se como a verdadeira esperança da humanidade e como aquela que irá desvendar os mistérios da existência, o que a impede de tentar ir além do que aquilo que pode ser imediatamente observado e começar a remexer o que pode haver de mais oculto, escondido por detrás dos fenômenos mensuráveis?

O ocultista é apena um cientista que ousou mais, que, de maneira heterodoxa, teve a coragem de se perguntar se não há manifestações na natureza que estão além daquelas que ele conseguiu medir e observar. O cientista, então, pode-se dizer, é um pré-ocultista, pois se ele remexe nos processos naturais em busca de respostas e de poder manipulatório, o ocultista faz a mesmíssima coisa, apenas com a diferença de que este não se limita a regras tão rígidas quanto a de uma publicação científica.

No entanto, as regras da comunidade acadêmica podem até limitar o alcance da ciência em seu aspecto publicitário, mas certamente não podem conter o espírito do cientista, que basta possuir um impulso um pouco mais forte e uma curiosidade um pouco mais aguçada para começar a se perguntar sobre o que há além de tudo aquilo que ele já conseguiu observar.

 

O esoterismo e os princípios reformados

O esoterismo tem nos princípios originais da Reforma Protestante o seu maior empecilho. Isso porque o movimento que dissociou-se da Igreja Católica Romana proclamou algumas ideias que, por serem rígidas em relação a alguns entendimentos, principalmente sobre a revelação e o papel do crente, acabaram por fechar as portas para qualquer tipo de pretensão esotérica no meio do cristianismo.

Para que fique bem claro, esoterismo a que me refiro significa a convicção de que existem verdades ocultas no cristianismo, não disponíveis às pessoas comuns. O esoterismo não nega a verdade exotérica, ou seja, aquela conhecida por todos, mas afirma que tais verdades são apenas o aspecto mais exterior de verdades mais profundas, as quais são conhecidas apenas dos grandes mestres, que as comunicam a seus iniciados, em contato direto com eles.

O princípio reformado da Sola Scriptura e, principalmente, o método hermenêutico que acaba por lhe acompanhar, impedem qualquer possibilidade de aceitação de algum conhecimento escondido na revelação. A literalidade da interpretação protestante não pode aceitar sentidos escondidos e os próprios símbolos apenas são acatados quando a própria Bíblia os explica. Sendo assim, qualquer tipo de conhecimento oculto está fora de questão, havendo apenas as Escrituras como fonte segura de verdades. Tal entendimento impede qualquer forma de ocultismo, qualquer forma de transmissão de conhecimentos que não seja única e exclusivamente pela exegese bíblica.

Há também o princípio da livre análise das Escrituras, que pressupõe que todo crente está potencialmente capacitado a compreender as verdades reveladas documentadas, apenas com o auxílio do Espírito Santo. Isso vai de encontro à figura do iniciado esotérico, como aquele que recebe de um mestre o conhecimento que fora transmitido oralmente de geração em geração. No cristianismo protestante, pelo menos em seu pensamento de origem, não há espaço para verdades escondidas, conhecidas apenas por uma elite, que as retém e transmitem a uns poucos escolhidos. Na visão protestante original tudo é aberto, escancarado, e acessível a qualquer um. Até porque era ponto pacífico entre os reformadores que a pregação deve ser capaz de atingir a todos, até os mais simples e, por isso, apenas poderia conter aquilo que fosse assimilável por qualquer pessoa.

Este mesmo princípio acabava por pressupor que toda a verdade que pode ser conhecida e necessária para o homem está disposta nas Escrituras Sagradas. Toda tentativa de apresentar alguma revelação oculta, alguma mensagem que não está contida na Bíblia é rechaçada de plano e tida por heresia pelos primeiros protestantes. É verdade que algumas seitas distanciaram-se desse princípio e acabaram aceitando doutrinas vindas de homens ou mulheres que diziam-se profetas e carregavam mensagens especiais sobre os assuntos da fé. Porém, estes, de fato, afastaram-se da rigidez inicial, que afirmava que apenas o que estava escrito na Bíblia poderia ser considerado revelação verdadeira.

Além de tudo isso, existe também o princípio do sacerdócio universal, que entende que todo cristão é um ministro de Deus, representante de sua mensagem neste mundo. Isto torna o protestantismo inicial seriamente anti-elitista, não havendo muito espaço para iniciados e grão-mestres. Na ótica protestante há apenas uma divisão simples: crentes e não-crentes. Falar em esoterismo, neste contexto, torna-se impossível.

Em virtude do que eu apontei acima é que ocultistas, como Annie Besant, discípula de Helena Blavatsky e pródiga escritora de livros esotéricos, afirmou que “o espírito da Reforma sempre foi intensamente antimístico; e por onde quer que sua respiração tenha passado, as belas flores do misticismo murcharam como sob o vento quente“. Até porque, segundo ela, “na época da Reforma, as igrejas dissidentes não foram conduzidas por ocultistas, mas por homens comuns do mundo, alguns bons e outros ruins, mas todos profundamente ignorantes dos fatos dos mundos invisíveis, conscientes apenas da casa exterior do cristianismo, seu dogmas literais e seu culto exotérico“.

Seja como for, as rígidas ideias originais da Reforma Protestante rechaçaram esoterismo e quem as segue tem pouquíssima margem de possibilidades de desenvolver algum tipo teologia oculta ou mesmo um aprofundamento mais ousado na compreensão dos símbolos. Isto não é uma questão de valor, mas mera análise dos fatos.

 

A insana necessidade de compreensão de tudo

Se eu pudesse destacar uma característica da espiritualidade moderna, não seria nenhum tipo de misticismo irracional, nem a busca por elementos tranquilizadores. O que caracteriza os religiosos de nosso tempo é a necessidade extrema de compreender tudo. O religioso contemporâneo tem horror ao mistério, ao incerto, ao que ele não pode prever. É por isso, por exemplo, que o espiritismo tem tantos adeptos, pois ele pretende explicar tudo. E mesmo aquelas manifestações religiosas que aparentam ser mais irracionais contêm esse mesmo elemento de previsibilidade, pois ainda que, em seus atos mais cotidianos, digam deixar-se levar pela atuação imprevisível do espírito, não suportam dizer que não entendem porque as coisas aconteceram de determinada maneira e não aceitam, de forma alguma, que qualquer situação humana, mesmo as mais trágicas, fiquem sem uma resposta definitiva, nem que seja: “Deus quis assim”.

Chesterton, em seu livro Ortodoxia, ressaltou a importância para a sanidade de aprender a viver entre o que se sabe e o misterioso. Tudo o que for aquém ou além disso é prenúncio de um certo tipo de desequilíbrio. Eu mesmo, em minha vida, aprendi, não a resignar-me de que as coisas são desse ou daquele jeito, mas admitir que não poderia compreendê-las todas. Principalmente aquelas que me pareciam mais absurdas, aceitei que, para manter-me são, precisaria deixar sua compreensão em suspenso, aguardando que algum dia, por misericórdia divina, eu pudesse entendê-las.

 

Próximos de Deus

Há um certo tipo de reverência em relação a Deus que, em vez de exaltá-lo, serve apenas para afastá-lo. Sempre existiram homens que, no intuito de preservar a figura divina de blasfêmias e irreverências, acabaram por escondê-lo das pessoas, tornando-o um ser distante e diáfano, imperceptível e quase inconcebível.

É verdade que há aqueles que tratam Deus como se fosse uma mera figura mitológica, enquanto outros, na ânsia de demonstrarem intimidade, referem-se a Ele como se estivessem falando de um homenzinho qualquer. Porém, esses equívocos não justificam lançá-lo a tão altos céus que o mero fato de mencioná-lo pareça uma heresia.

Pelo contrário, apesar de sua infinita grandeza, Deus fez questão de aproximar-se dos homens, tornando-se, pode-se dizer, verdadeiro amigo deles. De uma maneira que constituiu-se loucura para os gregos e escândalo para os judeus, Ele não permaneceu impassível em seu trono, mas rebaixou-se amorosamente, como um pai ao dobrar-se a brincar com seus filhos.

Por isso, ninguém deve temer dirigir-se a Deus, pois Ele está pronto para ouvir os homens. Na verdade, a reverência, tão exigida pelos mais escrupulosos, está muito menos na forma que no coração daquele que levanta sua voz e pensamento aos céus.

Há gente que, apesar dos sinais exteriores de respeito, possui uma alma tomada de intenções maléficas. Seus atos, então, são o pior tipo de blasfêmia, porque intentam ocultar do próprio Deus a verdadeira face de seus corações. Outros, porém, às vezes falham na forma, mas têm a certeza que dirigem-se a um Pai bondoso e esperam dele nada mais que sua ação misericordiosa.

Não que os ritos e os modelos sejam maus – longe disso! Porém, nada são quando praticados por quem apenas os repete para esconder seus maus intentos. E é por causa destes que Deus disse que estava cansado daquilo que ele mesmo entregou, a saber, os sacrifícios e as festas. É que Ele sabia que elas haviam tomado o seu lugar e se tornado um fim em si mesmos.

A grande conquista cristã foi exatamente a abertura do céu. O que Cristo adquiriu foi a possibilidade de um contato mais íntimo e espiritual com o Criador. Querer impedir isso com a desculpa do risco da blasfêmia e da irreverência é como a noiva que nega-se a entrar na câmara nupcial alegando pudor – pode parecer virtuosa, mas erra no essencial.

 

A consciência e a mensagem divina

Eu sempre desconfio de quem traz uma mensagem divina sem nenhuma dúvida. Isso porque qualquer pessoa normal possui uma consciência volúvel, até um tanto fragmentária e sujeita a inconstâncias. Ninguém possui uma unidade de consciência tão forte a ponto de conseguir manter uma certeza inabalável de algo tão sutil quanto uma mensagem vinda da transcendência. Isso porque há a influência do tempo, que afasta a mensagem carregada de sua emissão, fazendo com que diversas circunstâncias e interferências atuem sobre ela, causando um óbvio enfraquecimento de seu poder originário. Há, ainda, as próprias demandas internas do mensageiro, que atuam constantemente, podendo contradizer a revelação ou mesmo confundi-la.Profeta em dúvida

Apenas um pessoa extraordinária, fora do comum mesmo, conseguiria manter uma certeza inabalável diante de uma mensagem divina que carregasse consigo, apenas em sua mente. A realidade é assim e negar isso é negar a própria natureza humana. Como dizia Chesterton, só os loucos nunca têm dúvidas. E como diz a Bíblia, o profeta está sujeito ao seu próprio coração.

Se alguém diz carregar uma revelação divina especial, ao menos para mim, ela terá muito mais credibilidade se fizer isso com humildade suficiente para permitir que se coloque em dúvida a autenticidade da mensagem. No mínimo, que se permita avaliar se nessa mensagem não há alguma interferência humana, como por diversas vezes é relatado nas Escrituras.

Não vejo porque Deus não poderia falar por meio de seus filhos ainda nos tempos atuais. Isso é prerrogativa divina! O que não dá para aceitar é que a palavra de alguém que se diga portador de um recado de Deus seja considerada indubitável e infalível, só por que ele diz que assim o é.

A constante mística na religião

Há uma constante na história das religiões de raízes abrâmicas, que é a ininterrupta relação, senão conflito, com as derivações místicas que, ainda que não neguem a fonte ortodoxa original, se afastam dela pela experiência pessoal e espiritual.

O judaísmo, o cristianismo e o islamismo sempre tiveram de lidar com homens e movimentos que se afastavam do centro doutrinário e apresentavam versões mais místicas da mesma religião. A cabala, o pseudo-gnosticismo cristão e o sufismo são três desses tipos de manifestações, que, se não rejeitam a religião em sua aparência mais externa e rígida, desafiam-na com uma reivindicação de liberdade que assusta principalmente aqueles que encontram na dogmática religiosa o porto seguro. E mesmo dentro dos grupos cristãos específicos, sempre houve aqueles que penderam para uma vertente mais espiritualista, como os místicos medievais, os valdenses, os anabatistas espiritualistas, os pietistas, os quietistas entre muitos outros.Misticismo cristão

Sem adentrar na questão da licitude de tais movimentos, transparece, a olhos vistos, que há, em algumas pessoas, mais que em outras, uma forte tendência e necessidade dessaexperiência mística, que as faz penderem para essas formas mais heterodoxas de vida religiosa. Quando eu vejo, por exemplo, grupos com os pentecostais protestantes e os carismáticos católicos, ao invés de enxergá-los como simplesmente afastados da doutrina ortodoxa,
me pergunto se não são apenas pessoas com necessidades espirituais diferentes, que encontraram nessas formas de viver a religião o sentido mais profundo para a existência delas.

Se há, como não parece ter havido nos grupos místicos antigos, uma ignorância destes novos espiritualistas em relação à doutrina original de sua religião fonte, isso se dá menos pela escolha do caminho espiritual que fizeram e mais pelos tempos modernos que a todos, ortodoxos e heterodoxos, doutrinários e místicos, racionais e espirituais, rebaixaram sua cultura e inteligência.

Apenas entendo que o fenômeno místico não pode ser simplesmente renegado à heresia, sem se considerar se ele não tem alguma função na história da religião, especialmente a cristã, como parte de seu inclusivismo e universalidade.

Ser cristão não basta

Cristo em Emaús

Não se identificar com um dos lados da disputa, para alguns, é estar em cima do muro, é ser politicamente correto, é ser vacilante. Não aceitam que pode haver um espaço nebuloso e indefinido nas investigações que impeça a pessoa de identificar-se neste ou naquele lado. No meu caso, se eu não sou católico tenho que imediatamente ser protestante e se não sou este, como me digo cristão, tenho que ser aquele.

Por acaso, não posso continuar tentando entender as coisas do meu jeito, procurando extrair a verdade dos fatos e as razões históricas reais? Por acaso, não posso evitar uma identificação que certamente seria contraditória com aquilo que já entendi não estar correto? Será que o cristianismo se resume em ser católico ou protestante, quando existem diversas outras vertentes que me parecem bastante legítimas?

É menos cristão quem crê em Cristo, conforme TODO o ensinamento da Igreja sobre ele, sem tirar nem por, ainda que não se identifique com a manifestação atual dela? Aliás, ser cristão não basta, ainda que temporariamente?

É menos cristão quem, ainda que ame a Cristo com todas as suas forças, que O busque todos os dias no silêncio do seu quarto, que procure Nele toda a orientação para sua vida e que espere Nele a salvação de sua alma, não se diz católico ou protestante?

Os defensores dos dois lados vão me criticar, obviamente. Mas, de verdade, não vou tomar partido de nada que eu não esteja plenamente convicto da verdade.

O intelectual cristão e a sensibilidade do sentimento religioso

Devoção

A religião não deve ser tratada como uma ideia abstrata, que pode ser atacada sem que fira o íntimo da pessoa. Isso porque a religião, no verdadeiro crente, é a expressão máxima dele mesmo, é o que o define. Por isso ele não consegue separá-la de sua afeição mais profunda. Em razão dessa realidade, atacar sua fé torna-se como xingar sua mãe, agredir sua irmã, caluniar seu pai.

Uma pessoa inteligente, algumas vezes, fala de maneira a agredir o outro, conscientemente. Noutras, porém, pretende apenas discutir ideias. Neste caso, ele deve ter em conta que o sentimento religioso é deveras sensível. É que, de fato, quem não se sente agredido ao falarem de sua própria fé, não tem fé de verdade. Quem não sente o desejo de expor o erro da fé alheia, não tem muita convicção da sua própria. E tudo isso se manifesta tanto na dificuldade de aceitar um ataque à sua crença, como na facilidade de atacar a alheia, em defesa da própria.

Porém, são exatamente estes os desafios para a pessoa inteligente, que precisa agir de maneira mais elevada do que um crente comum. Os mais cultos deveriam ser o exemplo de conduta e de sensibilidade. Para que, afinal, serve a inteligência, senão para afastar da brutalidade e despertar a sutileza?

O que eu vejo, porém, é uma miríade de intelectuais cristãos, que se lançam como cães raivosos, uns contra os outros, condenando-se mutuamente à fogueira eterna, tratando com desrespeito insensível pontos caros da religiosidade alheia, bem como agindo como psicopatas, sem qualquer empatia, apenas buscando impor o que acreditam ser certo.

Que tipo de convicção religiosa é esta que tenta se impor logicamente sem considerar o elemento humano envolvido? Que espiritualidade se manifesta por meio da agressividade e da incompreensão do sentimento alheio?

Quando se trata de um religioso, sua intelectualidade não pode ser considerada da mesma forma como é em qualquer outro pensador sem relação com uma religião. Naquele, sua erudição não existe só para ele mesmo, apenas para fazê-lo mais conhecedor das coisas. Na verdade, não existe intelectualidade cristã desapegada do desenvolvimento espiritual e fortalecimento moral, como não existe erudição cristã sem o devido aperfeiçoamento da consciência cristã.

 

A leviandade dos atuais teólogos protestantes

Pregador afoito

Teólogos protestantes, por conta da liberdade que possuem, principalmente como consequência do princípio reformado da livre análise das Escrituras, muitas vezes ultrapassam a linha do bom senso e acabam criando verdadeiras deformidades hermenêuticas.

Como no caso do badalado pastor Ed René Kivitz que, replicando uma ideia que surgiu em outros meios protestantes estrangeiros, conseguiu enxergar uma conversa com conotação maliciosa, típica de filmes pornô amadores, entre Cristo e a samaritana, muitos outros teólogos arriscam-se em interpretações bíblicas bastante heterodoxas, não sentindo nenhum pudor em expô-las mesmo diante de um grande público.

E apesar de eu mesmo entender que é possível ao indivíduo compreender a mensagem dada por Deus pela revelação escrita, pois se assim não fosse estaríamos diante de um livro esotérico, acessível apenas a iniciados, também ressalto que junto a essa possibilidade surge a grande responsabilidade de exercer essa liberdade com sabedoria. Não se pode escapar das consequências perigosas de uma exegese equivocada, como não se pode fugir dos problemas causados pelas interpretações errôneas em relação à própria realidade.

Ocorre que há teólogos, e minha experiência ensinou-me que não são poucos, que agem, nesse assunto, com bastante leviandade. Abusam da liberdade que possuem, indo além do que lhes é possível inferir, para acrescentar ideias que, de tão improváveis, podem até ser consideradas impossíveis. Ideias que só podem ser aceitas em contextos muito diferentes e usando métodos muito elásticos de hermenêutica. Ideias que, por tudo isso, deveriam ser guardadas com muito cuidado, como se fossem abelhas africanas, que devem ser manipuladas apenas com muito cuidado e destreza.

Na verdade, um intérprete bíblico, se quiser ser tido por zeloso, deveria agir com bastante parcimônia, principalmente agora que já se percorreram mais de dois mil anos de cristianismo e praticamente tudo dentro dele já fora pensado, analisado e discutido.

O que , porém, esses exegetas protestantes modernos estão fazendo é repetir os métodos daqueles a quem eles mesmos criticam, como os primeiros filósofos cristãos Clemente e Orígenes. Estes, no entanto, diferente dos teólogos de hoje, não possuíam antes deles uma sólida tradição cristã. Muitos pontos ainda estavam em aberto e a teologia ainda era nascente. Arriscar-se em interpretações estranhas era quase uma necessidade, enquanto hoje não passa de exibicionismo.

Os teólogos de hoje em dia, porém, têm a sua disposição um cabedal enorme de interpretações e debates sobre os mais variados temas, sendo muito difícil encontrar algo que já não tenha sido percebido por alguém.

Por isso, um teólogo que realmente queira ser relevante deve se preocupar, antes de querer expor levianamente suas pretensas descobertas e insights, em assimilar o máximo possível de conhecimento, mergulhando naquilo que os pensadores antes dele discorreram. Depois disso, se, por acaso, ele tiver uma ideia nova, que provavelmente será um acréscimo diminuto a toda a discussão, poderá apresentá-la, sem antes, contudo, testá-la diversas vezes para saber se ela sobrevive a uma análise acurada e uma crítica rigorosa ao que propõe.

A psicologia humanista no ambiente cristão

Psicologia e cristianismo

Só os loucos acreditam em si mesmos, já exclamava Chesterton, no início do século XX. Nadando contra a maré intelectual que se impunha, o pensador inglês lançava sua tinta, com a ironia que lhe caracterizava, escarnecendo daqueles que se sentiam efusivos com as promessas das novas ciências, inclusive da ainda nascente Psicologia, de tornar o homem capaz de superar, por si mesmo, os limites que diziam eram impostos por uma mentalidade retrógrada e opressiva.

É certo que acreditar em si mesmo pode oferecer esperança, mas é mais certo ainda que será uma experiência frustrante. No entanto, ignorando tal realidade, círculos cristãos têm assumido não apenas as concepções da psicologia humanista, como também sua linguagem. Pregadores instam os fieis a acreditarem em suas próprias potencialidades, confiarem na força de seus pensamentos e sonharem com vôos mais altos em suas vidas. Claro que tudo isso é feito dentro de uma roupagem cristianizada, mas que não consegue ocultar, mesmo assim, a ideia que a subjaz, que é um otimismo exagerado nas capacidades humanas e uma declaração de independência em relação a Deus.

O fato é que muitos cristãos, inclusive seus líderes, têm praticado a psicologia humanista como se ela se coadunasse com os preceitos de sua doutrina. Muitas vezes essa relação lhes é inconsciente e se dá mais por uma absorção cultural do que por compreensão, mas o fato é que se ouve por aí muitas pregações que se parecem muito mais com palestras motivacionais de autoajuda do que a exposição das verdades da fé.

A verdade é que a psicologia humanista nega frontalmente aquilo que o cristianismo ensina como realidade, principalmente em relação à condição humana natural, que é explicada por ele como afetada por uma corrupção origina insuperável, que se não impede o desenvolvimento do indivíduo, é certo que atrapalha-o formidavelmente. Mas a psicologia humanista simplesmente ignora isso e estimula a pessoa a buscar uma suposta excelência humana por si mesma, sem a ajuda de qualquer transcendência ou qualquer divindade. É a crença absoluta no próprio ser humano, colocando-o como o realizador único de suas próprias prometidas conquistas.

O homem, na psicologia humanista, é um ser com possibilidades indefinidamente disponíveis, capaz de gerar em si mesmo a capacidade de superação de quaisquer limitações, que aliás ela considera como impostas artificialmente. Assim, recusa a doutrina cristã do pecado original e suas consequências, levando as pessoas a acreditarem que elas são capazes de feitos quase infinitos. Com isso, e diante do peso da realidade, cria-se uma geração de frustrados, porém sem deixar de ser esperançosos quanto ao que podem conquistar.

Esta talvez seja, portanto, a característica mais marcante da psicologia humanista e também aquilo que mais afronta a pregação cristã: a confiança do indivíduo nele mesmo. Os psicólogos humanistas insistem em fazer seus pacientes e ouvintes crerem que eles são capazes de grandes feitos. Mesmo quando as circunstâncias e a realidade informam que é impossível, o doutrinado pela psicologia humanista vai continuar acreditando que ele é capaz de, por si mesmo, superar todas as dificuldades. Tudo é uma mera questão de persistência e do uso dos métodos corretos. O cristianismo porém ensina o contrário, a saber, que devemos desconfiar de nossa carne, cientes de que ela pode nos levar aos movimentos mais baixos para satisfazer-se. Assim, a postura correta de um cristão é a desconfiança em relação a si mesmo e a procura pela ajuda superior, tudo o que a visão da psicologia humanista busca evitar.

Na verdade, todo esse antagonismo da psicologia humanista em relação ao cristianismo não passa de um efeito imediato do fato dela ter sido engendrada no seio do movimento New Age, carregando consigo seu espírito e seus conceitos. Tanto é assim que dois de seus maiores expoentes, Carl Rogers e Abraham Maslow, foram participantes ativos do Instituto Esalen, uma espécie de centro educacional, que tinha como objetivo explorar as potencialidade humanas, mas que na verdade se tornou um centro de experiências esotéricas e ocultistas, que serviram de base para muito do que foi feito depois sob a bandeira da Nova Era.

A realidade é que o ensinamento cristão não é tão otimista em relação à capacidade humana de superar, por si mesmo, suas limitações. Não que ele estimule a resignação absoluta, mas ensina a encontrar em Deus, ou seja, em uma força transcendente, o auxílio indispensável para essa superação. Como exclamou o apóstolo, quando estou fraco então é que sou forte.

Quando, portanto, os princípios da psicologia humanista são absorvidos e replicados dentro do ambiente cristão, o que existe é a negação do próprio cristianismo. Por mais que as pregações de autoajuda, que hoje se multiplicam nas comunidades, apresentem um verniz de cristianismo, citando Deus e trechos da Bíblia, no fundo são apenas as ideias da Nova Era, por meio de uma de suas crias, a psicologia humanista, infiltradas no ambiente cristão. Pode parecer até que muitas coisas ditas sejam bonitas, outras até têm algum sentido, mas não é esta mesma a tática do diabo, se travestindo de anjo de luz para enganar os filhos de Deus?

Publicado originalmente no blog Teologosofia