A constante mística na religião

Há uma constante na história das religiões de raízes abrâmicas, que é a ininterrupta relação, senão conflito, com as derivações místicas que, ainda que não neguem a fonte ortodoxa original, se afastam dela pela experiência pessoal e espiritual.

O judaísmo, o cristianismo e o islamismo sempre tiveram de lidar com homens e movimentos que se afastavam do centro doutrinário e apresentavam versões mais místicas da mesma religião. A cabala, o pseudo-gnosticismo cristão e o sufismo são três desses tipos de manifestações, que, se não rejeitam a religião em sua aparência mais externa e rígida, desafiam-na com uma reivindicação de liberdade que assusta principalmente aqueles que encontram na dogmática religiosa o porto seguro. E mesmo dentro dos grupos cristãos específicos, sempre houve aqueles que penderam para uma vertente mais espiritualista, como os místicos medievais, os valdenses, os anabatistas espiritualistas, os pietistas, os quietistas entre muitos outros.Misticismo cristão

Sem adentrar na questão da licitude de tais movimentos, transparece, a olhos vistos, que há, em algumas pessoas, mais que em outras, uma forte tendência e necessidade dessaexperiência mística, que as faz penderem para essas formas mais heterodoxas de vida religiosa. Quando eu vejo, por exemplo, grupos com os pentecostais protestantes e os carismáticos católicos, ao invés de enxergá-los como simplesmente afastados da doutrina ortodoxa,
me pergunto se não são apenas pessoas com necessidades espirituais diferentes, que encontraram nessas formas de viver a religião o sentido mais profundo para a existência delas.

Se há, como não parece ter havido nos grupos místicos antigos, uma ignorância destes novos espiritualistas em relação à doutrina original de sua religião fonte, isso se dá menos pela escolha do caminho espiritual que fizeram e mais pelos tempos modernos que a todos, ortodoxos e heterodoxos, doutrinários e místicos, racionais e espirituais, rebaixaram sua cultura e inteligência.

Apenas entendo que o fenômeno místico não pode ser simplesmente renegado à heresia, sem se considerar se ele não tem alguma função na história da religião, especialmente a cristã, como parte de seu inclusivismo e universalidade.

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