A psicologia humanista no ambiente cristão

Psicologia e cristianismo

Só os loucos acreditam em si mesmos, já exclamava Chesterton, no início do século XX. Nadando contra a maré intelectual que se impunha, o pensador inglês lançava sua tinta, com a ironia que lhe caracterizava, escarnecendo daqueles que se sentiam efusivos com as promessas das novas ciências, inclusive da ainda nascente Psicologia, de tornar o homem capaz de superar, por si mesmo, os limites que diziam eram impostos por uma mentalidade retrógrada e opressiva.

É certo que acreditar em si mesmo pode oferecer esperança, mas é mais certo ainda que será uma experiência frustrante. No entanto, ignorando tal realidade, círculos cristãos têm assumido não apenas as concepções da psicologia humanista, como também sua linguagem. Pregadores instam os fieis a acreditarem em suas próprias potencialidades, confiarem na força de seus pensamentos e sonharem com vôos mais altos em suas vidas. Claro que tudo isso é feito dentro de uma roupagem cristianizada, mas que não consegue ocultar, mesmo assim, a ideia que a subjaz, que é um otimismo exagerado nas capacidades humanas e uma declaração de independência em relação a Deus.

O fato é que muitos cristãos, inclusive seus líderes, têm praticado a psicologia humanista como se ela se coadunasse com os preceitos de sua doutrina. Muitas vezes essa relação lhes é inconsciente e se dá mais por uma absorção cultural do que por compreensão, mas o fato é que se ouve por aí muitas pregações que se parecem muito mais com palestras motivacionais de autoajuda do que a exposição das verdades da fé.

A verdade é que a psicologia humanista nega frontalmente aquilo que o cristianismo ensina como realidade, principalmente em relação à condição humana natural, que é explicada por ele como afetada por uma corrupção origina insuperável, que se não impede o desenvolvimento do indivíduo, é certo que atrapalha-o formidavelmente. Mas a psicologia humanista simplesmente ignora isso e estimula a pessoa a buscar uma suposta excelência humana por si mesma, sem a ajuda de qualquer transcendência ou qualquer divindade. É a crença absoluta no próprio ser humano, colocando-o como o realizador único de suas próprias prometidas conquistas.

O homem, na psicologia humanista, é um ser com possibilidades indefinidamente disponíveis, capaz de gerar em si mesmo a capacidade de superação de quaisquer limitações, que aliás ela considera como impostas artificialmente. Assim, recusa a doutrina cristã do pecado original e suas consequências, levando as pessoas a acreditarem que elas são capazes de feitos quase infinitos. Com isso, e diante do peso da realidade, cria-se uma geração de frustrados, porém sem deixar de ser esperançosos quanto ao que podem conquistar.

Esta talvez seja, portanto, a característica mais marcante da psicologia humanista e também aquilo que mais afronta a pregação cristã: a confiança do indivíduo nele mesmo. Os psicólogos humanistas insistem em fazer seus pacientes e ouvintes crerem que eles são capazes de grandes feitos. Mesmo quando as circunstâncias e a realidade informam que é impossível, o doutrinado pela psicologia humanista vai continuar acreditando que ele é capaz de, por si mesmo, superar todas as dificuldades. Tudo é uma mera questão de persistência e do uso dos métodos corretos. O cristianismo porém ensina o contrário, a saber, que devemos desconfiar de nossa carne, cientes de que ela pode nos levar aos movimentos mais baixos para satisfazer-se. Assim, a postura correta de um cristão é a desconfiança em relação a si mesmo e a procura pela ajuda superior, tudo o que a visão da psicologia humanista busca evitar.

Na verdade, todo esse antagonismo da psicologia humanista em relação ao cristianismo não passa de um efeito imediato do fato dela ter sido engendrada no seio do movimento New Age, carregando consigo seu espírito e seus conceitos. Tanto é assim que dois de seus maiores expoentes, Carl Rogers e Abraham Maslow, foram participantes ativos do Instituto Esalen, uma espécie de centro educacional, que tinha como objetivo explorar as potencialidade humanas, mas que na verdade se tornou um centro de experiências esotéricas e ocultistas, que serviram de base para muito do que foi feito depois sob a bandeira da Nova Era.

A realidade é que o ensinamento cristão não é tão otimista em relação à capacidade humana de superar, por si mesmo, suas limitações. Não que ele estimule a resignação absoluta, mas ensina a encontrar em Deus, ou seja, em uma força transcendente, o auxílio indispensável para essa superação. Como exclamou o apóstolo, quando estou fraco então é que sou forte.

Quando, portanto, os princípios da psicologia humanista são absorvidos e replicados dentro do ambiente cristão, o que existe é a negação do próprio cristianismo. Por mais que as pregações de autoajuda, que hoje se multiplicam nas comunidades, apresentem um verniz de cristianismo, citando Deus e trechos da Bíblia, no fundo são apenas as ideias da Nova Era, por meio de uma de suas crias, a psicologia humanista, infiltradas no ambiente cristão. Pode parecer até que muitas coisas ditas sejam bonitas, outras até têm algum sentido, mas não é esta mesma a tática do diabo, se travestindo de anjo de luz para enganar os filhos de Deus?

Publicado originalmente no blog Teologosofia

 

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