O intelectual cristão e a sensibilidade do sentimento religioso

Devoção

A religião não deve ser tratada como uma ideia abstrata, que pode ser atacada sem que fira o íntimo da pessoa. Isso porque a religião, no verdadeiro crente, é a expressão máxima dele mesmo, é o que o define. Por isso ele não consegue separá-la de sua afeição mais profunda. Em razão dessa realidade, atacar sua fé torna-se como xingar sua mãe, agredir sua irmã, caluniar seu pai.

Uma pessoa inteligente, algumas vezes, fala de maneira a agredir o outro, conscientemente. Noutras, porém, pretende apenas discutir ideias. Neste caso, ele deve ter em conta que o sentimento religioso é deveras sensível. É que, de fato, quem não se sente agredido ao falarem de sua própria fé, não tem fé de verdade. Quem não sente o desejo de expor o erro da fé alheia, não tem muita convicção da sua própria. E tudo isso se manifesta tanto na dificuldade de aceitar um ataque à sua crença, como na facilidade de atacar a alheia, em defesa da própria.

Porém, são exatamente estes os desafios para a pessoa inteligente, que precisa agir de maneira mais elevada do que um crente comum. Os mais cultos deveriam ser o exemplo de conduta e de sensibilidade. Para que, afinal, serve a inteligência, senão para afastar da brutalidade e despertar a sutileza?

O que eu vejo, porém, é uma miríade de intelectuais cristãos, que se lançam como cães raivosos, uns contra os outros, condenando-se mutuamente à fogueira eterna, tratando com desrespeito insensível pontos caros da religiosidade alheia, bem como agindo como psicopatas, sem qualquer empatia, apenas buscando impor o que acreditam ser certo.

Que tipo de convicção religiosa é esta que tenta se impor logicamente sem considerar o elemento humano envolvido? Que espiritualidade se manifesta por meio da agressividade e da incompreensão do sentimento alheio?

Quando se trata de um religioso, sua intelectualidade não pode ser considerada da mesma forma como é em qualquer outro pensador sem relação com uma religião. Naquele, sua erudição não existe só para ele mesmo, apenas para fazê-lo mais conhecedor das coisas. Na verdade, não existe intelectualidade cristã desapegada do desenvolvimento espiritual e fortalecimento moral, como não existe erudição cristã sem o devido aperfeiçoamento da consciência cristã.

 

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